By mapeia
Amiguitos,
Quando eu me formei em jornalismo lááá pelos idos de 1999, fiz uma revista experimental de “comportamento e política pop” chamada Reversus. E um dos textos da revista era justamente sobre a festa do boi no morro do Querosene. Recuperei os meus arquivos e tô mandando pra lista o texto que a minha amiga Lili escreveu sobre a festa. Considerem que o texto foi escrito em 1999 então, creio eu, muita coisa deve ter mudado por lá!
abraços
Andre

O lugar do popular

Desfile de carnaval, só vê quem paga. Ainda há espaço para as festas populares
e públicas?

por Liliane Pereira Braga.

Vestidos com fitas coloridas, ninguém ali se lembrava que – em dias normais – os
postes tinham aquela aparência sisuda e cinzenta da cidade. Sabe-se lá se alguém,
naquele instante, atentava sequer para o fato… Não era um dia normal. Aliás, nem era
dia. O rubro da noite – com os seus sortilégios bandeirianos – já havia rompido o
horizonte e trazia consigo a alegria das luzes vibrantes e do colorido das roupas dos
personagens de uma festa que difere em muito do cotidiano da cidade na qual ela está
inserida: a São Paulo construída sobre o concreto e a discrepância social.
O que acontecia ali se aproxima do raro para os que vivem na pele a desigualdade na
distribuição de renda, a falta de emprego e o preconceito, principalmente aquele por
que passam os nortistas e nordestinos que vêm em busca de melhores condições
nesta cidade… E, mais ainda, se se levar em conta a pouca sociabilidade a que estão
acostumados os paulistanos preocupados, antes de tudo, em trabalhar para sobreviver
(e, se sobrar um tempinho, ver um cineminha ou levar o filho no shopping para brincar
aos finais de semana…)

Onde está o público do público?
“Hoje em dia, as pessoas estão acostumadas a se reunir em espaços privados, na
sala de casa com os amigos para ver vídeo, para jogar videogame…” A frase é do
estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo,
Wellington, 26 anos, para quem “não existem mais encontros públicos no público”. A
sua indignação se manifestou quando perguntado o que o levou à tal rua dos postes
coloridos, onde acontecia a “festa do Boi”, no último sábado de aleluia.
Que espaço seria mais propício a “encontros públicos” senão a rua, o mais público de
todos os espaços? Em São Paulo, essa é uma hipótese um tanto refutável… Pela
quantidade de carros que trafegam pelas “nossas” ruas diariamente e, também, pelo
medo da violência, com a qual são obrigados a conviver mais diretamente os
habitantes de grandes centros urbanos.
Wellington frequenta essa festa há três anos. Como ele, muitos dos que lá estiveram
uma vez, não conseguiram mais deixar de ir. Por que? Talvez por ser um espaço
PÚBLICO onde adultos, jovens e crianças têm a rara oportunidade de se divertir
juntos, tarde e noite adentro (ou até quando a disposição aguentar). “O maior mérito
dessa festa é propiciar que as pessoas saiam e se divirtam sem precisar pagar ou
estar bem vestidos, que é o que acontece nos espaços privados ou semi-públicos
como barzinhos e shopping centers. Aqui, elas utilizam o espaço público, o único lugar
em que, em tese, não há discriminação, onde ninguém é segregado”.
A rua, ou melhor, as ruas onde acontece a festa ficam no bairro do Butantã, em um
lugar conhecido como Morro do Querosene. O apelido vem da época em que poucas
ruas da cidade eram privilegiadas com iluminação elétrica e a região – situada em um
ponto alto da cidade – vivi à luz de  lampiões a base do combustível. Lá, acerca de
dez anos, alguns artistas vindos do Maranhão se juntaram a músicos, escritores,
atores que ali moravam ou freqüentavam e passaram a realizar ensaios abertos. O
que ensaiavam? De tudo um pouco. E os ensaios foram se tornando oficiais e grupos
temáticos foram se formando; como o Grupo Cupuaçu, de pesquisa folclórica
brasileira, e o Grupo Cachoeira, que procura esmiuçar e trazer a tona antigas
manifestações culturais do interior paulista.

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A mídia nem liga, mas a festa lota mesmo assim
A “festa do Boi”, como é conhecida, acontece três vezes ao ano. Sua atração principal
é o auto do Boi-Bumbá (dividido em nascimento, batizado e morte do boi),
personagem folclório natural do Maranhão. “Além de ser um resgate da cultura
brasileira, é também uma grande confraternização popular”. O músico Leonardo da
Cunha Barros, 24 anos, é, assim como Pedro, de seis anos, um dos assíduos
frequentadores da festa. A diferença são os motivos que os levam até lá e que, para o
menino, é difícil desprender os olhos das danças, até para falar. “Vim ver a ‘dança’ do
boi”. “É a primeira vez que vem?”. “Não, já vim quatro vezes. E hoje a minha mãe não
podia faltar porque ela é a sanfoneira, e o forró sem sanfona não é forró”. Além de
Pedro, dezenas de crianças corriam soltas pela festa, ou apenas ficavam se
aquecendo em volta da fogueira, com os olhos presos às chamas fluorescentes,
contagiados por uma alegria que não encontram fora dali…
Artistas famosos (a maioria envolvidos com movimentos populares) também são
atraídos pelo evento, como Chico César e os integrantes do grupo Mestre Ambrósio,
de Recife (PE). A atitude não deixa de ser uma forma de se solidarizar com os seus
colegas artistas que, à margem da “Indústria Cultural”, sobrevivem mais da alegria
proporcionada pelo seu trabalho do que de seus frutos…
Há três anos residindo em São Paulo, os meninos do Mestre Ambrósio (nome que
vem de uma figura popular de Pernambuco) sabem bem o que é estar “à margem”.
Em Recife, faziam muito sucesso pelas ruas. Lançaram seu primeiro disco sem
gravadora e vieram para São Paulo, onde eram obrigados a se apresentar em casas
de show, procurando, sempre que podiam, dar uma canjinha em locais públicos, como
nas festas da Univerdade de São Paulo (USP). Apesar do contrato assinado com a
gravadora “…” há mais de um ano e com o segundo disco finalizado desde então,
somente agora, em junho, o “Fuá na casa do Cabral” conseguiu chegar às lojas. Os
músicos, no entanto, nunca deixaram de freqüentar a festa e de participar dela,
tocando as matracas (duas madeirinhas da qual se extrai som batendo uma à outra),
os pandeirões e os tambores-de-onça ou cuícas, como faz a grande maioria dos seu
freqüentadores. No meio de tanta alegria movida a música e dança, é difícil ficar
parado.

Números
O público circulante das festas gira em torno de três mil pessoas. Pouco? Não, se
pensado em um evento que não é divulgado pela mídia. Dificilmente sai uma ou outra
matéria em um ou outro jornal. Então, como as pessoas ficam sabendo? “A notícia vai
rolando boca a boca, as datas ficam pré-estabelecidas. Os moradores do Morro fazem
questão de avisar os amigos, e a cada ano vem mais gente”, observa a maranhense
Ana Luizia, 28 anos, e há oito frequentadora da festa. Morando em São Paulo há dez
anos, Ana ficou sabendo da festa logo depois de sua chegada, por uma amiga paulista
que tinha contato com os seus organizadores.
As épocas do ano são sempre as mesmas: sábado de aleluia, segunda quinzena de
junho e na primavera, com início no sábado a tardinha e sem previsão de término
(geralmente, a última atração entra por volta de 5h30 da manhã). “Antes participavam
mais os moradores daqui e de bairros próximos. Hoje vem gente das Zonas Leste,
Norte e Sul. Se passarmos a ter uma assessoria de imprensa para divulgar a festa, ela
perde o seu principal caráter: o de ser uma festa popular”, defende um dos integrantes
do grupo Cupuaçu (nome de uma fruta típica do Norte do país).
Para Ana, a festa “é bem parecida com os arraiais que acontecem por lá nas festas
juninas. A diferença é que nas comunidades do interior a festa está muito relacionada
à religião e os seus organizadores são pessoas com uma certa autoridade dentro da
comunidade; geralmente, os mais velhos. Quem freqüenta a festa aqui é gente mais
aberta à diversidade e o pessoal se envolve de verdade na festa, pega a matraca,
toca, dança um dos méritos da festa é dar oportunidade para quem não pode viajar até
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o Maranhão, ou não conhece a festa por ser pouco veiculada pelos meios de
comunicação….”.
E essa participação toda é motivo de muito orgulho para os integrantes oficiais da
festa – por volta de trinta pessoas, fora os que já participaram e aparecem por lá com
as roupas e instrumentos- e moradores do bairro, preocupados cada vez mais com a
sua  infra-estrutura, que inclui carro de som, luz banheiros e barraquinhas de
alimentação. A Secretaria Estadual de Cultura costuma “dar uma força”, mas ainda
não é suficiente. Por isso, as barraquinhas são por conta dos próprios vendedores e
parte do seu lucro retorna para a compra dos tecidos e artigos para as fantasias, como
as penas de Ema das roupas dos índios e as calças de cetim e chapéus com fitas
coloridas dos caboclos, personagens do auto do boi.
E os artistas, vivem de quê? O vaqueiro (um dos defensores do boi no auto) e
“tocador”, Henrique Menezes, 28 anos, veio do Maranhão para ser mecânico
hidráulico e, hoje, vive exclusivamente da arte. Além de integrante do grupo Cupuaçu
há oito anos, Henrique também faz parte do grupo de dança Saia Rodada, ambos
dirigidos por um dos “mentores” da festa do boi, o também maranhense Tião Carvalho
(o mesmo da banda Mafuá, muito conhecida nos forrós de São Paulo). Isso foi o que
aconteceu com a maioria dos que hoje são membros dos grupos folclóricos do Morro:
tinham um emprego “burocrático”, que não os satisfaziam, e preferiram as incertezas
da vida de artista… popular.
Um dos integrantes do Mestre Ambrósio, Mauricio Alves, tenta resumir o significado da
festa como o resultado (feliz) do sincretismo resultante da formação deste “centro
urbano”. Afinal, “São Paulo é a  maior capital nordestina do país”.

As várias histórias sobre o boi
A história do Boi-Bumbá, ou farra do boi, possui várias versões. Na festa do Morro do
Querosene, a versão religiosa foi adotada para o batismo e morte do boi. Mas o fato
principal é o desejo de Catirina, mulher do Pai Francisco em comer a língua do boi
quando está grávida. Então, os amigos do boi (índios) passam a defendê-lo, e os
amigos de Pai Francisco (caboclos) o ajudam a capturar o boi para pegar a sua língua.
O humor vem dos improvisos nas cenas de perseguição ao boi, quando os atores se
deixam levar pela imaginação e se utilizam até de fatos da sociedade para tornar os
diálogos mais dinâmicos. Como, por exemplo, falar que o boi “não pode ser
privatizado”.
A lenda religiosa, no entanto, diz que o fato teve início num acontecimento em uma
fazenda distante no Maranhão. Por essa versão, o boi pertencia a São João, e era
encantado porque sabia dançar. Um certo dia, São Pedro pediu-lhe o boi emprestado;
só que São Marçal também gostou do boi, e perguntou a São Pedro se ele lhe
emprestaria o bichinho. Disse que São João já lhe havia emprestado com muitas
recomendações, mas acabou cedendo. Foi realizada uma festa e, nela, todos
beberam a vontade, esquecendo-se de cuidar do boizinho. O povo, com fome,
encontrou o animal, jogado, num canto e resolveu comê-lo. Quando São Marçal
percebeu, já era tarde. São João ficou muito triste e também o povo que, pra
compensar, resolveu fazer um boi de buriti (material típico Maranhão), canela de viado
(espécie de cipó), que passou a ser utilizado para brincar nos dias de São João, de
São Pedro e de São Marçal.


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