By mapeia

casa 8: EIA no CICAS, sexta feira 12.12

As músicas ridículas – para alguém sempre são ridículas as coisas nossas – não saem da minha cabeça. Do EIA, naturalmente. Leio no texto do Jaime escrito “pareceia” em vez de “parecia” e já não sei se é piada, costume ou só errinho de digitação. Estou com a famosa marca de sol de pescador que ganho todo o final de ano depois do EIA: de camiseta, parecendo que fomos a Acapulco, disse a Marina, rolei no chão de rir, com papéis de forrar mesa mal picotados na mão, em plena pizzaria, já descalça, observada por garçons, formandos e o pessoal da festa da firma. Nossa idéia era que esses pedaços pudessem virar correio elegante: “Adoro te encontrar sozinha no almoxarifado” bem que poderia ser um deles. Mas nossa própria conversa estava tão mais interessante que elocubrar sobre os casos do escritório. Nós também temos os nossos. Casos, não escritório. Resolvi que nesse texto aqui, sem compromisso nenhum como quase tudo que escrevo e vivo hoje, só ia escrever o que estivesse bem fresco latejando na cabeça, sem esforço pra lembrar de nada. Fica foda me lembrar do Gavin dizendo que achava que a gente era igual ao Bijari e por isso não sai da cabeça. Sem ofensas ao Bijari, cada um que venda o que bem quiser, da maneira que achar melhor – não diziam isso um ou outro teórico de uma ou outra área do conhecimento? – não temos nada a ver com isso, mas sinceramente, quem pode ver a relação? Acho que só ele. Sempre a Virada Cultural. Mal sabe ele disso, daquilo e do outro. Não sei porque me preocupo. Mal sabe ele que bêbada, bem no final da festa joguei todos os lambes deles atrás da geladeira (nem por cima do meu cadáver – teria dito o Edu quando cogitamos colar aqueles lambes da AIDS) e tive que passar o dia todo do Grajaú lembrando preocupada que a minha casa poderia pegar fogo a qualquer momento sem contar pra ninguém meu ataque de totalitarismo – tudo por causa de sandálias plásticas ecologicamente sustentáveis e minha raivinha etílica. E agora tudo pra provar que não. E o pior é que, depois, toda arrependida, levei e deixei a pilha no carro: foram displicentemente colados com fita crepe num ponto de ônibus não sei bem por quem. Fazer o grude dos infernos é delicioso, mas requer um pouco mais de tesão dentro da tecnologia do corpo de cada um: eu é que não ia pegar em soda cáustica por causa disso sendo que, algumas vezes enfiei até a mão dentro do balde, sem medo, como tomei água de torneira de todos os lugares por onde passamos essa semana, não sei bem por qual motivo, uma experiência imersiva, quem sabe…. Mas também não brigo mais por quem resolve fazer, cada um, cada dois, um minuto, cinco. O Euler também vem à minha memória recorrentemente. Lembro dele me alfinetando nas reuniões (e eu de volta, lógico) e adoro o contraste do dia em que cortou o cabelo da Gisela com estilete e mandou que eu me fudesse, com toda a razão, eu é que não fiquei contrangida: morri de rir e vi uma barreira cujo tamanho e utilidade assemelhavam-se aos da ponte estaiada sendo derrubada em segundos. Me lembro da hora da reviravolta nos CICAS, quando tudo estava duro, tenso e travado e as moças sentaram na calçadas acompanhadas pelas crianças que viravam sacis e fadas e uma roda onde elas de fato podiam e queriam falar reverteu o medo de uma tarde inteira. As divisões são necessárias: não somos bobos, nós, na verdade já sabíamos exatamente o que se sente nos eixos, nos debates ou fora deles. Em cada momento, podemos não saber o que é dito com as palavras certas, mas estávamos aqui (ou lá) entre olas, tosse e outros tiques homenageando cada situação. Ou citação. Nós sabemos supor, também, como aquela menina loira que perguntou como eu ia fazer pra resolver o fuá do meu cabelo adivinhou minha antiga nova profissão: professora – pedi demissão hoje. Professora de inglês. Supõe-se. Queridos, me desculpem, eu de fato tento fazer a coisa de uma maneira ou outra que me recomendam, o exercício de pensar profundamente sobre as coisas que fazemos e o que me sai é isso, espero que não se afundem porque aqui não tem poça. Eu me recuso a sentar na poça reclamando dela, mijando, bebendo a água e reclamando. Mas as profundidades são muitas e variadas, como as lógicas e tantas outras coisas que existem na vida, no mundo e nas cabeças das pessoas. Putz, não consigo não pensar na Diana em diversos momentos: uma fofoquinha sentada na cama e aquela menina que eu achava que era nosso próprio Gavin se mostra tão de verdade quanto todomundo, fazendo sorvetes incríveis, perguntas maravilhosamente desconcertantes e lembrando que alguém de fato precisa fazer esse papel. Uma vez ou outra me recuso a entrar na roda só porque não estou com vontade, em outras acho um saco, mas sei que é legal. Ler o email da Flávia se desculpando por não ter ido me faz lembrar de mim mesma; quantas vezes fiz isso – fazemos isso pra nós mesmas, essas mulheres não tomam jeito, não. Pensei na Fabi Borges incontáveis vezes essa semana. Alguém me disse que ela agora ia virar hacker e só conseguia pensar nela com aquela roupa da telenovela do Tulio, olhos azuis arregaladíssimos olhando pra dentro da tridimensionalidade virtual enquanto eu procuro a trema com certa dificuldade em alguns tipos de teclado. Alguém tem que fazer essas coisas importantes, bem que me disse aquele anarquista, enquanto fica todomundo estudando história, artes e filosofia. Vou ser sincera: me senti deslocada inúmeras vezes durante a semana. Me sinto besta fantasiada cometendo batucadas no pandeiro, mas vamos. De chapéu, tiarinha da cinderela, braço esticado na roda, dancinha de índio e o caralho a quatro. Mas muito menos que sentada ouvindo a punhetagem alheia mais alheia que a dos outros, a dos outros dos livros que outros leram, talvez todo, talvez meio, talvez a orelha se me tomo por exemplo, prefiro a minha no quarto, depois da festa. Não me sinto ridícula quando vejo todomundo se juntando pra decidir algo e arrumando jeitos de se fazer isso. Não me sinto ridícula quando sinto pulsando a vontade de voltar a algum lugar e dali juntar coisas que se aprendeu lá e cá com pessoas que se conheceram assim ou assado e um mundo todo de possibilidades se desenhando nitidamente em frente a meus olhos fechados, abertos, as alucinações na estrada depois de uma noite sem dormir, tomando patadas de galinha seca enquanto máscaras de oxigênio caem automaticamente sobre nossas cabeças. Primeiro você, depois as crianças. Não me sinto ridícula vendo a transformação nas pessoas, nas relações que essas mesmas cenas que critico vieram me transformando ao longo desses últimos quatro anos. Ficar pelada na frente da galera inteira não foi nada. Não me sinto ridícula lembrando da vida de artes contemporâneas sem perspectiva que levávamos preenchendo fichinhas com lacunas na frente da palavra nome, endereço, título e conceito. Fico bastante feliz agora em ver que pelo menos e no mínimo, estamos vivendo.

relato Milena Durante

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fotos da Fernanda Cobra

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2 Responses to “Registros – CICAS”


  1. 1 mari
    dezembro 9, 2008 às 3:09 am

    sexta-feira, 05 de dezembro de 2008.

    na correria, sempre. entra no carro, coloca o som.
    atrasada chego ao encontro com George. no centro vamos fazer as comprar para os cafés da manhã.
    entra e sai entra e sai, liga, pergunta, faz e refaz a lista.
    para um pouquinho pra comer algo. toma um côco gelado que derrama no corpo… a boca não dá conta de preencher aquele buraco imenso que fizeram na fruta.

    prefiro sem canudos.

    pela noite, em casa, aguardo ansiosamente para darmos início à imersão.
    vixe, mas já estou tão cansada.
    não tem problema. a presença de pessoas me faz bem e logo sinto como se tivesse durmido o dia todo.

    pega a máquina lá?
    nossa tenho que carregar a bixinha..
    abre a portinha, tira a bateria e encaixa no carregador.
    ok.
    liga na tomada.
    a luzinha pisca assim?
    pisca, deixa piscar, daqui umas horas ela estará recarregada.

    dança, pula, toma várias…se não fosse a ridícula vergonha também viraria minotaura.

    a maquininha continua piscando?
    é, continua..

    estou cansada.
    deixa ela aí ligada, acho que não terminou de carregar.
    ah, sei.
    mas só pra verificação, liga ela aí meu!

    ok,
    tira da tomada, pega a bateria, abre a portinha e enfia ela na máquina.
    ok, agora aperta o botão.

    nossa!
    ela não liga!
    mas é impossível? ela nunca deixou de ligar…
    não funciona,
    não funciona,

    puta meu e agora?
    ai..que bom,
    ufa!
    nada de fotos.

  2. dezembro 16, 2008 às 3:31 pm

    sonhando com a melância…mais ela é real!!!
    sonhando com um local…mais ele é real!!!
    sonhando com a liberdade…que me disseram que era real!?!
    acordado pra encarar a dura realidade wm que vivemos e lutar!!!
    valew EIA, 1000% a presença de todos sempre será maravilhosa!!!


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